Professor titular do Departamento de Sistemas de Computação da UFPB, o engenheiro Guido Lemos — que participou do desenvolvimento do programa Ginga, incorporado ao padrão do Sistema Brasileiro de Televisão Digital — acredita que a chegada da TV 3.0 pode marcar a retomada da relevância da televisão aberta no cenário de consumo de conteúdos, hoje dominado pelos serviços de streaming (OTT).
“Quando você olha o que que tá acontecendo nas TVs que estão instaladas em várias residências do Brasil, principalmente o pessoal de renda mais alta, que tem acesso à internet e consegue sustentar fluxos de vídeo nos aparelhos de televisão, observa que a maioria dessas TVs não está conectada em antena de recepção de TV aberta”, afirma Lemos.
Nova experiência para o público
Os televisores que serão lançados com suporte à TV 3.0 devem chegar às lojas já configurados para exibir, na tela inicial, um catálogo de canais abertos. Diferentemente das atuais Smart TVs, que priorizam aplicativos de streaming, a proposta é recolocar a TV aberta em destaque. “A proeminência do ícone do DTV Mais na primeira tela, do botão DTV Mais no controle remoto, de certa forma, é uma reconquista do espaço que a TV aberta perdeu na primeira tela e no controle remoto dos receptores de TV. Então, com isso, esse processo de diminuição do número de usuários pode ser revertido”, acrescenta o engenheiro.
Nos últimos anos, os dados mostram queda tanto no alcance da TV aberta quanto no número de assinantes da TV paga, enquanto o streaming continua crescendo e já está presente em quatro de cada dez domicílios com televisão.
Avanços no campo público
Além do setor privado, a TV 3.0 deve abrir espaço estratégico para a comunicação pública. O modelo prevê a criação de uma Plataforma Comum de Comunicação Pública, que reunirá emissoras educativas e institucionais, e também o Governo Digital, voltado a ofertar serviços públicos diretamente pela TV. Mesmo onde o sinal das emissoras não chega por antena, a conexão pela internet suprirá essa ausência.
“Haverá uma plataforma comum que vai compor os canais da União e, com isso, todo televisor que tenha conexão com a internet vai poder acessar o conteúdo dessas emissoras públicas. Cabe destacar que mais de 50% dos televisores hoje no Brasil são conectados à internet”, explica Carlos Neiva, vice-presidente de Relações Institucionais, Rede e Tecnologia da Astral e coordenador da Rede Legislativa de Rádio e TV da Câmara dos Deputados.
Segundo ele, a novidade permitirá que as emissoras públicas ofereçam aplicativos, não apenas canais, ampliando o alcance de conteúdos sob demanda e interativos: “Não serão mais apenas canais, mas aplicativos. E a rede legislativa terá seu aplicativo, a TV Brasil, o Canal Gov. E esses aplicativos terão não apenas o conteúdo linear [grade de programação convencional], mas também o conteúdo por demanda, ou seja, personificado. É a mesma experiência, por exemplo, que você tem no YouTube ou numa plataforma de streaming”.
Marcelo Moreno, da UFJF, acrescenta que já existem projetos conjuntos entre universidades e empresas de tecnologia para desenvolver ferramentas e aplicativos voltados à comunicação pública, “garantindo que ela também tire proveito de funcionalidades avançadas como personalização, interatividade e novos formatos audiovisuais”.
Desafios pela frente
Apesar do potencial, a implantação da TV 3.0 enfrenta obstáculos importantes. O primeiro está nos custos de migração — tanto para emissoras, que precisarão investir em licenciamento de tecnologias e novos transmissores, quanto para consumidores, que terão de adquirir conversores e aparelhos compatíveis. Outro desafio é a ampliação do acesso à internet de qualidade, condição indispensável para que a nova tecnologia chegue à maioria da população.
Segundo o Cetic.br, apenas 22% dos brasileiros com 10 anos ou mais dispõem de “conectividade significativa”, indicador que considera fatores como velocidade, custo da conexão, banda larga fixa em casa e uso em múltiplos dispositivos.
O levantamento TIC Domicílios 2024 mostra que, em 20 anos, o percentual de lares urbanos com internet saltou de 13% para 85%. Mas a desigualdade ainda é marcante: 73% dos indivíduos da classe A têm boa conectividade, contra apenas 3% entre as classes D e E. Regionalmente, o índice chega a 33% no Sul, mas cai para 11% no Nordeste. Há também diferença por gênero: 28% dos homens têm acesso adequado, contra apenas 16% das mulheres.




