Vestido de preto e com projeções de bombardeios no palco, o presidente argentino Javier Milei transformou o lançamento de seu novo livro em um espetáculo de rock. A apresentação, realizada na noite de segunda-feira (6), na Movistar Arena, em Buenos Aires, reuniu cerca de 15 mil pessoas e mesclou política, música e provocações.

Com voz rouca e tom teatral, Milei abriu o evento com as músicas “Panic Show”, da banda La Renga, e “Demoliendo Hoteles”, de Charly García. Em seguida, apresentou os integrantes da chamada Banda Presidencial, composta por deputados aliados, e cantou cerca de dez canções.

Após as apresentações, o presidente repudiou um ataque antissemita ocorrido na capital argentina. “Não vamos permitir esta xenofobia que a esquerda está tentando instalar”, afirmou antes de entoar “Hava Nagila”, canção folclórica judaica que o público acompanhou timidamente. Em tom desafiador, completou: “Vamos, que isto incomoda a esquerda!”.

Em outro momento, incentivou os presentes a cantar “Cristina Tobillera”, referência à prisão domiciliar da ex-presidente Cristina Kirchner, sua maior adversária política. O público respondeu com aplausos quando foram exibidas imagens do ex-presidente norte-americano Donald Trump e do ativista conservador Charlie Kirk, assassinado no mês passado nos Estados Unidos.

O livro, intitulado “La Construcción del Milagro” (“A Construção do Milagre”, em tradução livre), reúne discursos e publicações de Milei — a maioria do ano passado — e apresenta sua visão sobre o chamado “milagre econômico argentino”. O lançamento, porém, ocorre em meio à pior fase de seu mandato de quase dois anos, marcado por uma crise política e desgaste popular.

No último domingo, um dos principais candidatos governistas às eleições legislativas de 26 de outubro renunciou após denúncias de ligação com o narcotráfico, ampliando a instabilidade política. Ainda assim, o presidente tenta reviver o clima de sua campanha de 2023, quando cultivava a imagem de economista e astro do rock.

Do lado de fora da arena, a polarização foi evidente. Milhares de militantes libertários se reuniram no bairro de Villa Crespo para apoiar Milei. “Temos que decidir se acabamos com a decadência de 100 anos”, declarou Leonardo Saade, de 37 anos, que viajou de Entre Ríos para assistir ao evento. “O milagre econômico argentino está sendo estudado em universidades do mundo”, disse ele à AFP.

Enquanto isso, manifestantes contrários exibiam cartazes com frases como “Fora Milei”. “Este homem vive em outro país, não tem ideia da fome que o povo está passando”, afirmou Liliana Castelnovo, aposentada de 73 anos e paciente oncológica, que relatou não ter condições de comprar seus medicamentos.

O governo enfrenta forte queda de popularidade e tensão com o Congresso, que recentemente derrubou dois vetos presidenciais — um referente ao financiamento de universidades e outro à saúde pediátrica. As derrotas parlamentares geraram dúvidas sobre a governabilidade e provocaram uma corrida cambial, contida apenas após promessas de apoio financeiro dos Estados Unidos.

Um dos integrantes da Banda Presidencial, o baterista e economista Bertie Benegas Lynch, assina o prólogo do livro e afirma que Milei “provou que apenas o interesse pessoal e o individualismo fazem florescer a paz e a prosperidade”.

Apesar de ter conseguido reduzir a inflação e alcançar um superávit fiscal inédito, o governo Milei enfrenta duras críticas devido ao aumento do custo de vida, à queda do consumo e à retirada de subsídios que tornaram mais caros o acesso à moradia, à saúde e à educação.

Nas proximidades da Movistar Arena, um cartaz ironizava: “Milei, é um milagre que alguém venha comprar alguma coisa.” Um açougueiro chamado Rubén, que preferiu não revelar o sobrenome, resumiu o sentimento de muitos: “Eu acreditei que [Milei] sabia algo de economia, mas ele não sabe nada. Assim qualquer um baixa a inflação, se ninguém compra nada.”