Sim, o assassinato de Ayman al-Zawahiri, comandante da al-Qaeda e a mente mais prodigiosa dos atentados de 11 de Setembro, é uma vitória para o impopular Joe Biden, que se encontra numa enrascada política e econômica. A cem dias das eleições legislativas, contudo, a eliminação do parceiro de Osama bin Laden, dificilmente dará impulso aos democratas e se reverterá nos votos de que tanto precisam para manter o controle do Congresso.

Com a autorização para alvejar o terrorista por meio de um ataque a drone, o presidente americano tenta se redimir da trágica retirada do Afeganistão, o ponto de partida para a queda de seu prestígio. Ao mesmo tempo, expõe novamente o fracasso da política externa dos EUA ao manter a ocupação de duas décadas no país asiático e a humilhante saída das tropas americanas.

Em agosto passado, quando decidiu encerrar a guerra, Biden se justificou das cenas catastróficas produzidas no aeroporto de Cabul pela retirada abrupta dos EUA do país. “Que interesse temos no Afeganistão neste momento com o fim da al-Qaeda? Fomos ao Afeganistão com o propósito expresso de nos livrarmos da al-Qaeda no Afeganistão. E isso nós conseguimos.”

Um ano depois, Biden comemora o assassinato do líder da rede terrorista e a determinação dos EUA de perseguir suas células, não importa onde se escondam. “Agora, a justiça foi feita e esse líder terrorista não existe mais.”

É de se estranhar, na lógica imaginada pelo presidente americano, a facilidade com que al-Zawahiri foi localizado e vivia, numa casa em um bairro rico de Cabul e não entocado numa caverna na região montanhosa do país. O livre trânsito do terrorista na capital afegã evidencia também a clara violação do acordo firmado por Donald Trump com o Talibã, no qual o grupo assegurava que não daria guarida à al-Qaeda no país.

Mais ainda: diante de ambiente tão seguro, o que fazia al-Zawahiri no Afeganistão e quais eram os seus planos? Não saberemos. O ataque com drones poupa vidas americanas, mas elimina também a possibilidade de coleta de material e ainda inflige ao acordo outra violação, desta vez cometida pelos EUA: a de que não atacaria o país.

Não resta dúvida: ao assassinar al-Zawahiri, os EUA se livraram de mais um perigoso terrorista, símbolo do maior ataque em solo americano, que vitimou três mil pessoas. Mas o fato de ele estar justamente no centro do poder afegão é mais um indício de que duas décadas de guerra e ocupação pouco contribuíram para mudar a realidade do país.

Crédito: G1