A ausência de uma liderança efetiva na Secretaria Municipal de Saúde (Sesau) há mais de 30 dias agravou a crise na rede pública de Campo Grande e fez disparar o número de ações judiciais relacionadas à falta de leitos hospitalares. De acordo com o Comitê Estadual de Mato Grosso do Sul do Fórum Nacional da Saúde do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), as demandas judiciais cresceram 42% entre 2024 e 2025.

No ano passado, o Núcleo de Apoio Técnico ao Judiciário (NatJus) elaborou 1.090 notas técnicas sobre pedidos de internação hospitalar. Somente entre janeiro e julho deste ano, já foram registradas 1.114 notas — mesmo com cinco meses a menos de análise.
O dado mais alarmante, porém, é o dos últimos dois meses: 435 pedidos judiciais em cerca de 70 dias, o que equivale a quase seis solicitações diárias. O período coincide com o intervalo em que o município está sem secretário de Saúde, desde a exoneração da médica Rosana Leite de Melo, no dia 5 de setembro.

Desde então, a gestão da pasta está sob responsabilidade de um Comitê Gestor da Saúde, formado por seis integrantes, que tenta conter o colapso da rede hospitalar. Hospitais conveniados ao Sistema Único de Saúde (SUS) confirmam a sobrecarga e alertam que a lotação já atinge níveis críticos.

Hospitais operam no limite

O levantamento feito junto às unidades da rede conveniada mostra que praticamente todos os leitos estão ocupados.
O Hospital Universitário Maria Aparecida Pedrossian (Humap/UFMS) informou que suas unidades de terapia intensiva — CTI adulto, UCO, UTI pediátrica e UTI neonatal — operam com 100% de ocupação.

O Hospital Adventista do Pênfigo também trabalha sem vagas disponíveis. A unidade mantém 20 leitos de UTI e 30 clínicos contratualizados com a prefeitura, além de outros 10 de UTI e 20 clínicos com contrato vigente com o governo estadual até novembro. Todos estão ocupados.

Já a Santa Casa dispõe de 637 leitos destinados ao SUS — sendo 609 entre UTIs e enfermarias, 23 no pronto-socorro e 8 na unidade coronariana (UCO). A taxa de ocupação atual é de 80,87%, com permanência média dos pacientes de 7,28 dias.
Diante do cenário, o hospital solicitou audiências emergenciais com a prefeita Adriane Lopes (PP) e com o governador Eduardo Riedel (PP) para discutir a continuidade da prestação de serviços públicos conforme decisão judicial vigente.

O Hospital Regional de Mato Grosso do Sul (HRMS) foi procurado, mas não respondeu.
Vale lembrar que o orçamento municipal destina cerca de um terço de seus recursos à Saúde: R$ 2,1 bilhões em 2025, de um total de R$ 6,87 bilhões, e R$ 2,25 bilhões previstos para 2026.

Pacientes esperam por transferência

Nas Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) da Capital, pacientes que deveriam estar internados em hospitais permanecem em observação por dias, o que tem transformado esses locais em verdadeiros hospitais improvisados.
Um dos casos é o de Dilfa Almeida, de 74 anos, cuja família ingressou com ação na Defensoria Pública pedindo uma vaga hospitalar. Horas depois, o Poder Judiciário determinou que a prefeitura tem 72 horas — prazo que termina neste sábado — para realizar a transferência da paciente para uma unidade adequada, pública ou privada.

A idosa está internada desde a manhã de segunda-feira na UPA Leblon, apresentando tosse com sangue enquanto aguarda um leito.
Na decisão, o juiz Marcelo Ivo de Oliveira destacou:

“Em outras palavras, configurada a manutenção de paciente grave em local inadequado, está presente a negligência do poder público. De outra banda, o perigo de dano se mostra presente, porque a medida, ao que parece, é necessária para a manutenção da vida digna da parte requerente, uma vez que a classificação de risco é de prioridade 2”.

Prefeitura promete medidas emergenciais

Em nota, a Prefeitura de Campo Grande, por meio da Sesau, afirmou que acompanha de perto o colapso de leitos e apresentou ações para tentar minimizar os efeitos da crise.

“Entre as medidas estruturantes para ampliar a capacidade da rede, está o Complexo Hospitalar Municipal, que já se encontra em fase de licitação e prevê mais de 250 leitos, tanto pediátricos quanto adultos. Além disso, como medida a curto prazo, a Pasta mantém tratativas com as instituições contratualizadas para ampliação dos leitos disponíveis ao SUS. A Sesau reforça ainda a importância de que casos de menor complexidade busquem as Unidades Básicas de Saúde, que também atendem à demanda espontânea e, com isso, ajudam a evitar a sobrecarga dos serviços de urgência”.

O Complexo Hospitalar Municipal mencionado é o futuro Hospital Municipal de Campo Grande (HMCG), atualmente em fase final de análise documental. A previsão é de que a contratualização ocorra entre o fim deste ano e o início de 2026.
Enquanto isso, a prefeitura aposta em acordos temporários com instituições privadas para ampliar a quantidade de leitos destinados ao SUS.

Disputa pela regulação das vagas

Além da falta de leitos, há um impasse entre os governos municipal e estadual sobre quem controla a regulação de vagas do SUS. Hoje, há duas centrais distintas: uma gerida pelo Executivo estadual, responsável pelos pacientes do interior, e outra sob comando da prefeitura, voltada exclusivamente à Capital — uma divisão que tem gerado conflitos e atrasos no encaminhamento de pacientes.