O Super Bowl, decisão da liga de futebol americano disputada na noite deste domingo (8), em Santa Clara, na Califórnia, extrapolou o campo esportivo e se transformou em um grande ato multicultural em defesa dos imigrantes, com mensagens de valorização dos países latino-americanos e críticas explícitas ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Dentro de campo, o confronto entre Seattle Seahawks e New England Patriots acabou ficando em segundo plano diante da repercussão política e cultural do evento. Anunciada meses antes, a escolha do cantor porto-riquenho Bad Bunny para comandar o show do intervalo já havia provocado irritação em Trump, que se posicionou publicamente contra a participação do artista. No palco, Bunny reforçou o orgulho latino e demonstrou apoio aos imigrantes que vivem em território norte-americano.

O clima de contestação teve início ainda antes da bola rolar. A banda Green Day, conhecida por suas posições contrárias a Trump, abriu as apresentações musicais e incluiu no repertório sucessos como American Idiot. Embora o vocalista Billie Joe Armstrong não tenha citado o presidente nominalmente, como já ocorreu em outros shows, a presença do grupo punk foi interpretada como um gesto simbólico de oposição ao governo.

Bad Bunny

O show de Bad Bunny, realizado no intervalo da partida, foi considerado histórico, especialmente no contexto da política anti-imigração adotada pelo governo norte-americano e da atuação do ICE, órgão responsável pela repressão a imigrantes em situação irregular, frequentemente acusado de abusos e violações de direitos.

Sem menções diretas a Trump ou ao ICE, o artista conduziu uma apresentação com forte conteúdo político e multicultural, destacando a relevância das nações latino-americanas para a sociedade dos Estados Unidos. Todas as músicas e falas foram feitas em espanhol, enquanto o cenário remetia a uma plantação de cana-de-açúcar, cultura que já teve grande importância econômica em Porto Rico e segue presente em outros países da região.

Ao longo do espetáculo, diversos elementos da cultura latina foram incorporados. A cantora Lady Gaga participou como convidada e interpretou Die With a Smile, mantendo a letra em inglês, mas adaptada a um ritmo latino. Outro destaque foi a entrada de Ricky Martin, também porto-riquenho, que cantou Lo Que Le Pasó a Hawaii, música de Bad Bunny que aborda a colonização predatória promovida por governos norte-americanos.

A reação do presidente foi rápida. Por meio da rede social Truth Social, Trump publicou a seguinte mensagem:

“O show do intervalo do Super Bowl é absolutamente terrível, um dos piores de todos os tempos! Não faz sentido, é uma afronta à Grandeza da América, e não representa nossos padrões de Sucesso, Criatividade ou Excelência. Ninguém entende uma palavra do que esse cara está dizendo, e a dança é nojenta, especialmente para crianças pequenas que estão assistindo por todos os Estados Unidos e no mundo. Este ‘show’ é apenas um ‘tapa na cara’ do nosso País, que estabelece novos padrões e recordes todos os dias, incluindo o melhor mercado de ações na história! Não há nada inspiracional nessa bagunça de show do intervalo, que terá ótimos reviews da mídia de fake news, porque eles não têm ideia do que está acontecendo no MUNDO REAL. E, aliás, a NFL deveria substituir imediatamente essa regra do pontapé inicial. FAÇA A AMÉRICA GRANDE DE NOVO! Presidente Donald J. Trump”.

Nos minutos finais da apresentação, que durou cerca de 13 minutos, dançarinos entraram em campo carregando bandeiras de todos os países do continente americano. Bad Bunny apareceu segurando uma bola de futebol americano, disse “God Bless, America” e percorreu o gramado citando, um a um, os países da região — do Chile ao Canadá, passando por Brasil, Guatemala e Porto Rico — até chegar aos Estados Unidos, diferenciando o país do conceito mais amplo de América.