O presidente Luiz Inácio Lula da Silva alertou nesta sexta-feira (7) que o planeta pode caminhar para um colapso ambiental caso os conflitos armados continuem comprometendo os esforços globais de redução das emissões de gases do efeito estufa. Segundo ele, guerras como a da Ucrânia, invadida pela Rússia há quase quatro anos, interromperam um ciclo de avanços na agenda climática mundial.

Durante a abertura da segunda sessão temática da Cúpula do Clima, em Belém, Lula criticou o aumento dos investimentos em armamentos em detrimento das ações de combate à crise ambiental.

“O conflito na Ucrânia reverteu anos de esforços para reduzir as emissões e levou à reabertura de minas de carvão. Gastar com armas o dobro do que destinamos à ação climática é pavimentar o caminho para o apocalipse climático. Não haverá segurança energética em um mundo conflagrado”, afirmou.

A Cúpula do Clima, que se encerra nesta sexta-feira, antecede a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30), marcada para novembro, também em Belém. O encontro reúne líderes internacionais para reforçar compromissos multilaterais e discutir estratégias de enfrentamento à crise ambiental. Entre os participantes estão o secretário-geral da ONU, António Guterres, o presidente do governo espanhol, Pedro Sánchez, e a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen.

Transição energética e desigualdade global

O presidente destacou que, apesar de alguns avanços rumo à transição energética, a realidade ainda é desigual entre as nações. Populações em países pobres e em desenvolvimento, segundo Lula, seguem distantes de uma “transição justa”.

“É fundamental combater todas as formas de pobreza energética. Dois bilhões de pessoas ainda não têm acesso a combustíveis adequados para cozinhar, 660 milhões vivem à base de lamparinas e geradores a diesel, e 200 milhões de crianças estudam em escolas sem energia elétrica”, ressaltou.

Lula também criticou o sistema financeiro internacional que, segundo ele, continua financiando de forma desproporcional a indústria de combustíveis fósseis.

“No ano passado, os 65 maiores bancos do mundo destinaram US$ 869 bilhões ao setor de petróleo e gás. Desde o Acordo de Paris, a dependência global de combustíveis fósseis caiu de 83% para apenas 80%”, observou.

Fundo com lucros do petróleo

Em seu discurso, o presidente anunciou a criação de um fundo para direcionar parte dos lucros do setor de óleo e gás a projetos de energia renovável. Ele defendeu que países do Sul Global tenham acesso a tecnologia e financiamento para promover uma transição energética mais equilibrada.

“Direcionar parte dos lucros da exploração do petróleo para a transição energética é um caminho válido para os países em desenvolvimento. O Brasil criará um fundo com esse objetivo, buscando enfrentar as mudanças climáticas e promover justiça climática”, disse.

Lula também cobrou soluções para o que chamou de “injustiça das dívidas externas impagáveis” e destacou a necessidade de mecanismos inovadores, como a troca de dívidas por investimentos em mitigação climática.

Ao encerrar o discurso, o presidente pediu que os países implementem o acordo firmado na COP28, em Dubai, que prevê triplicar a produção de energia renovável e dobrar a eficiência energética até 2030.

“Os cientistas já fizeram sua parte. Agora, os negociadores precisam buscar consenso, e nós, líderes, decidir se o século 21 será lembrado como o da catástrofe climática ou da reconstrução inteligente”, concluiu.