Há pacientes internados no Hospital Regional de Mato Grosso do Sul que estão em condições tão delicadas que sequer podem ser deslocados pelos corredores da unidade para realizar uma sessão de hemodiálise.
Nesses casos, o tratamento precisa chegar até eles.
É uma situação que a nefrologista Ana Carolina Yonamine Rodrigues Dias conhece de perto. O setor de Nefrologia do hospital atende tanto pessoas com doença renal crônica, que dependem regularmente da hemodiálise, quanto pacientes que apresentam insuficiência renal aguda durante uma internação.
“Quando o paciente não tem condições de ser transportado dentro do Hospital, conseguimos realizar a hemodiálise no próprio leito. Isso é especialmente importante para quem está em estado crítico”, explica.
O serviço realiza atualmente mais de 600 sessões de hemodiálise por mês, todas oferecidas pelo Sistema Único de Saúde. Mais do que um número, isso significa centenas de vezes, todos os meses, em que uma estrutura pública precisa estar disponível para alguém cuja continuidade do tratamento depende dela.
É a partir dessa dimensão menos visível do funcionamento de uma cidade que Campo Grande chega aos 127 anos. Enquanto avenidas, bairros e novos empreendimentos revelam uma capital em expansão, hospitais, escolas e serviços públicos enfrentam outro tipo de desafio: acompanhar esse crescimento e garantir que desenvolvimento urbano também signifique capacidade de cuidar.
Nos últimos anos, o Governo de Mato Grosso do Sul ampliou investimentos e repasses para a saúde da capital, ao mesmo tempo em que mantém intervenções no Hospital Regional e em outras estruturas. Para o governador Eduardo Riedel (Progressistas), candidato à reeleição, a próxima etapa prevê combinar obras físicas com modernização, saúde digital e ampliação do acesso a consultas, exames e atendimentos especializados.
Um tratamento que não pode parar
A Nefrologia do Hospital Regional mantém atendimento especializado desde 2004.
Em setembro de 2025, o setor foi reinaugurado depois de passar por ampliação e melhorias estruturais. Para quem precisa de um tratamento contínuo, mudanças no ambiente não são apenas uma questão de conforto.
“A estrutura adequada faz diferença em um tratamento que exige acompanhamento contínuo. Além da parte técnica, buscamos oferecer segurança e um atendimento mais humanizado”, afirma Ana Carolina.
O setor também oferece diálise peritoneal, modalidade que, para pacientes com indicação, permite realizar o tratamento em casa, mantendo acompanhamento da equipe.
Essa possibilidade altera uma dimensão essencial da vida de quem convive com uma doença crônica: a autonomia.
“A possibilidade de fazer a terapia no domicílio traz mais autonomia para determinados pacientes, mas sempre com o suporte e o acompanhamento da nossa equipe”, explica a nefrologista.
A experiência sintetiza um princípio que atravessa os investimentos na área: uma estrutura hospitalar pode ser medida em equipamentos, obras e valores, mas, para quem depende dela, os indicadores mais concretos são outros — as condições do atendimento, a segurança durante um procedimento e a possibilidade de receber tratamento quando ele é necessário.
Hospital Regional passa por sequência de melhorias
O setor de Nefrologia é uma parte de uma agenda maior de intervenções no Hospital Regional.
As obras e melhorias relacionadas pelo Estado alcançam áreas como Central de Material Esterilizado, enfermaria e UTI pediátrica, fachada, ressonância magnética, climatização do centro cirúrgico e outras estruturas hospitalares.
Também está em andamento a ampliação do Laboratório Central de Saúde Pública, o Lacen.
Há ainda o projeto de implantação de uma Policlínica, com investimento total estimado em R$ 26,1 milhões, reunindo recursos federais e contrapartida estadual.
Esses investimentos convivem com o financiamento cotidiano da rede.
Os repasses estaduais para a saúde em Campo Grande chegaram a R$ 237,2 milhões em 2023, R$ 269,2 milhões em 2024 e R$ 277,1 milhões em 2025. Até julho deste ano, outros R$ 200,1 milhões haviam sido registrados.
A sequência mostra uma característica pouco visível do sistema público de saúde. Não basta construir ou reformar hospitais. “É preciso manter estruturas funcionando diariamente, financiar equipes, procedimentos e serviços e, ao mesmo tempo, adaptar a rede às novas demandas de uma capital que continua crescendo”, lembra o governador.
Uma cidade também se transforma dentro da escola
A pressão exercida pelo crescimento urbano não aparece apenas nos hospitais.
Na educação estadual, foram registrados R$ 192,3 milhões em investimentos e 81 obras de reforma e melhoria entregues em escolas de Campo Grande desde 2023, enquanto outras intervenções permanecem em execução.
As ações abrangem reformas gerais, ampliações, quadras, redes lógicas, instalação de placas solares e melhorias em unidades de diferentes regiões da cidade.
Escolas como Maria Constança de Barros Machado, Marçal de Souza Tupã-Y, Ada Teixeira dos Santos Pereira, Sebastião Santana de Oliveira e Maestro Heitor Villa Lobos aparecem entre as unidades que receberam investimentos de maior porte.
Nesse caso, a transformação ocorre em outra escala da vida cotidiana: a sala de aula.
Se, para um paciente, a qualidade de uma política pública aparece nas condições em que recebe atendimento, para estudantes e famílias ela pode estar na estrutura da escola, na ampliação do período de permanência, na disponibilidade de tecnologia ou na oferta de formação profissional.
“Por isso, nosso plano para os próximos quatro anos prevê não apenas novas intervenções físicas, mas também modernização das escolas, ampliação do ensino em tempo integral, alfabetização, tecnologia e educação profissional”, avisa Riedel.
A próxima fronteira está nos serviços
O desenho apresentado para Campo Grande entre 2027 e 2030 procura acrescentar uma nova camada ao ciclo de investimentos realizados na cidade.
Se parte importante dos últimos anos esteve associada a obras físicas, a próxima etapa pretende avançar sobre a maneira como os serviços públicos são prestados.
Na saúde, estão previstas a ampliação de consultas, exames e atendimentos especializados e uma utilização maior da saúde digital. Na educação, além das melhorias estruturais, entram modernização, tecnologia e expansão do tempo integral.
Há também uma proposta mais ampla de digitalização dos serviços públicos, simplificação do atendimento ao cidadão, estímulo à inovação e melhoria do ambiente de negócios.
Para uma cidade do tamanho de Campo Grande, tecnologia pode representar algo bastante concreto quando utilizada para diminuir deslocamentos, simplificar procedimentos ou aproximar serviços de quem vive longe das regiões centrais.
É nesse sentido que o projeto apresentado pelo governador procura conectar crescimento econômico, infraestrutura e qualidade dos serviços públicos.
“Nosso próximo passo é fazer Campo Grande avançar como uma capital moderna sem perder aquilo que mais importa: a qualidade de vida das pessoas”, afirma Riedel.
Segundo ele, isso passa por continuar os investimentos físicos, mas também “usar tecnologia para melhorar os serviços, fortalecer a saúde e a educação, proteger quem mais precisa e criar um ambiente capaz de gerar oportunidades, emprego e renda”.
Crescer também significa alcançar quem precisa
O desafio ganha outra dimensão quando se observa a quantidade de famílias que ainda dependem diretamente da proteção social.
Em março deste ano, 16.350 famílias de Campo Grande eram atendidas pelo Mais Social e 6.197 pelo Energia Social/Conta de Luz Zero.
São números que mostram que uma capital economicamente dinâmica também convive com vulnerabilidades.
Por isso, o planejamento estadual inclui políticas destinadas a mulheres, pessoas com deficiência, cuidadores, população em situação de rua e famílias vulneráveis, além da combinação entre assistência social, qualificação profissional e acesso ao trabalho.
Entre as propostas estão uma nova Casa Abrigo e a expansão de iniciativas como MS Supera Mulher e Recomeços.
Essa dimensão social coloca um limite importante para qualquer balanço sobre desenvolvimento: crescimento urbano e investimento público não eliminam automaticamente desigualdades nem encerram demandas.
“Ao contrário, uma cidade maior exige serviços mais complexos, capacidade de atendimento maior e políticas capazes de alcançar populações com necessidades distintas”, pontua o candidato.
A cidade que existe atrás dos números
Campo Grande chega aos 127 anos com hospitais em transformação, escolas reformadas, serviços sendo modernizados e uma agenda ainda extensa pela frente.
Parte dessa mudança é visível. Outra acontece em ambientes que a maioria das pessoas só conhece quando precisa deles.
A sala de hemodiálise é um desses lugares.
Ali, falar em modernização de uma capital deixa de significar apenas novas tecnologias ou grandes projetos urbanos. Pode significar a possibilidade de levar o equipamento até o leito de um paciente que não consegue ser transportado. Pode significar oferecer a determinados pacientes condições de continuar a terapia em casa. Pode significar tornar mais seguro e humano um procedimento repetido centenas de vezes todos os meses.
Ana Carolina resume essa perspectiva ao falar da reforma do setor onde trabalha:
“Mais do que ampliar uma estrutura, a reinauguração representa ampliar a capacidade de cuidar. Cuidar com tecnologia, mas também com escuta. Cuidar com conhecimento técnico, mas sem perder de vista a pessoa que está por trás de cada atendimento.”
Talvez esteja justamente aí um dos principais desafios de Campo Grande para os próximos anos.
Uma capital pode crescer em território, população, investimentos e oportunidades. Mas a medida mais exigente desse crescimento continua sendo humana: a capacidade de fazer com que, quando alguém precisar da escola, do hospital ou da proteção do Estado, exista um serviço público capaz de chegar até essa pessoa.
Mesmo quando ela não consegue sair do próprio leito.




