Ainda impulsionadas pela promessa de emagrecimento rápido e sem esforço, as chamadas canetas emagrecedoras têm sido alvo de contrabando por diferentes rotas em Mato Grosso do Sul. Apenas nos últimos sete meses, as apreensões realizadas nas rodovias federais do Estado somaram quase R$ 6 milhões, conforme dados da Polícia Rodoviária Federal (PRF) obtidos pela reportagem.

O levantamento aponta que, entre 5 de junho do ano passado e 13 de janeiro deste ano, foram apreendidas 6.550 unidades desses produtos — sendo 5.281 no segundo semestre de 2025 e outras 1.269 apenas nas duas primeiras semanas de 2026.

Na média, cerca de 30 canetas emagrecedoras são interceptadas a cada dia nas estradas federais que cortam o Estado.

Considerando o valor médio de R$ 900 por unidade, o montante retido pela PRF chega a aproximadamente R$ 5,85 milhões no período analisado. No entanto, o prejuízo aos contrabandistas pode ser ainda maior, já que o preço praticado pelos vendedores ilegais varia conforme a região de destino, podendo superar essa média.

A BR-463, que liga Ponta Porã a Dourados, desponta como a principal rota utilizada pelos criminosos, favorecida pela proximidade com o Paraguai — país onde os produtos são adquiridos a preços mais baixos e, posteriormente, distribuídos por diversas regiões de Mato Grosso do Sul.

Das 99 apreensões feitas pela PRF nos últimos sete meses, 50 ocorreram nessa rodovia, que possui cerca de 120 quilômetros de extensão.

Na sequência aparecem a BR-060, que conecta Brasília a Campo Grande, com 21 registros, e a BR-163, principal eixo de ligação entre o Sul e o Norte do País, com 14 apreensões. Também constam no levantamento ocorrências nas BRs 267, 262, 419 e 338, além da rodovia estadual MS-338.

O maior flagrante foi registrado em 17 de dezembro de 2025, quando 840 canetas emagrecedoras foram apreendidas na BR-060, em Sidrolândia. Na ocasião, os policiais abordaram um Toyota Hilux após perceberem o nervosismo do motorista. Ele acabou confessando o transporte de mercadorias ilegais e informou que havia retirado a carga em Ponta Porã.

Em entrevista concedida anteriormente, o fiscal da Vigilância Sanitária da Secretaria de Estado de Saúde (SES), Matheus Moreira Pirolo, explicou que os contrabandistas costumam optar por Mato Grosso do Sul por acreditarem que o Estado é menos fiscalizado do que o Paraná, que também faz fronteira com o Paraguai.

Esse entendimento, segundo ele, acaba ampliando a circulação desses produtos no território sul-mato-grossense, facilitando o acesso do consumidor final aos mercados paralelos, onde há ampla oferta das canetas.

“[Queremos] acabar com essa ideia de que Mato Grosso do Sul é um corredor seguro para o crime, para as infrações. Supõe-se que aqui seria mais fácil passar para o restante do Brasil do que pelo Paraná, que aqui seria despoliciado. Então, a gente também quer enfrentar essa ideia de que aqui seria terra sem lei”, afirmou o fiscal.

A constatação de que a BR-463 lidera as ocorrências reforça o relato de Pirolo, que apontou que as canetas são compradas por até R$ 500 em municípios de fronteira — como Ponta Porã, Bela Vista, Antônio João e Coronel Sapucaia — e revendidas por valores que podem chegar ao triplo, dependendo do destino.

De acordo com norma vigente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), os produtos T.G. 5 (RE 4.030), Lipoless (RE 3.676), Lipoless Éticos (RE 4.641), Tirzazep Royal Pharmaceuticals (RE 4.641) e T.G. Indufar (RE 4.641) estão proibidos no Brasil, não podendo ser fabricados, comercializados, distribuídos, importados ou divulgados por meio de propaganda.

Já medicamentos como Mounjaro e Ozempic, mais conhecidos do público, têm uso permitido no País, por estarem devidamente regulamentados pela agência sanitária.

Força-tarefa

Na semana passada, uma força-tarefa formada por órgãos estaduais e federais em Mato Grosso do Sul apreendeu milhares de canetas emagrecedoras de diferentes marcas, avaliadas em mais de R$ 1 milhão.

A operação foi conduzida pela Vigilância Sanitária da Secretaria Estadual de Saúde (SES), em parceria com os Correios, e resultou na apreensão de 2.071 produtos irregulares provenientes do Paraguai. Entre os itens estavam canetas injetáveis para emagrecimento, esteroides anabolizantes, ampolas e comprimidos anorexígenos à base de lisdexanfetamina (Venvance), todos sem autorização da Anvisa para comercialização no Brasil.

A meta da ação é reduzir em pelo menos 80% o fluxo desses medicamentos ilegais, e a operação deve seguir até o fim deste mês.

Os produtos foram encaminhados ao Centro de Triagem e Distribuição dos Correios, no bairro Amambaí, em Campo Grande. A iniciativa contou ainda com o apoio da Coordenação de Vigilância Sanitária de Portos, Aeroportos e Fronteiras de Mato Grosso do Sul (CVPAF-MS) e do Conselho Regional de Farmácia de Mato Grosso do Sul (CRF-MS).

União

A reportagem também procurou a Polícia Federal (PF), a Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública de Mato Grosso do Sul (Sejusp-MS) e a Receita Federal em busca de dados complementares sobre apreensões no Estado. Até o fechamento desta edição, porém, não houve retorno dos três órgãos.

Ainda assim, ações recentes indicam o reforço da fiscalização. Na terça-feira, por exemplo, PF e Receita Federal atuaram conjuntamente em duas operações que resultaram na apreensão de canetas emagrecedoras: a Operação Emagrecimento Seguro, em Campo Grande, e outra ação realizada em Dourados. Em ambos os casos, os produtos tinham origem estrangeira e ingressaram ilegalmente em Mato Grosso do Sul, embora a quantidade apreendida não tenha sido divulgada.

Saiba
A maior parte das remessas de canetas emagrecedoras ilegais é ocultada em meio a outros produtos e objetos, estratégia utilizada pelos contrabandistas para dificultar a fiscalização e a identificação dos ilícitos.