O Pantanal vive em 2025 um cenário inédito: a menor incidência de queimadas desde o início do monitoramento. Dados recentes apontam que menos de 1% do bioma foi atingido pelo fogo, um contraste com anos recentes marcados por devastação. Até o momento, apenas 15,5 mil hectares foram queimados — número muito inferior ao registrado em 2018, quando o menor acumulado até então chegava a 198,8 mil hectares.
Segundo informações do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), também houve queda histórica nos focos de calor. De janeiro a 16 de agosto foram contabilizados apenas 144 focos, sendo 19 em agosto. Para comparação, em 2024, apenas no mesmo mês, o número chegou a 4.411. A série histórica, iniciada em 1998, nunca havia registrado índices tão baixos.
Essa redução contrasta com o período crítico de estiagem iniciado em 2019 e agravado até 2024. Nos anos de seca mais severa, como em 2020 e 2024, o fogo consumiu 26% e 17% do Pantanal, respectivamente, impondo um cenário de crise sem precedentes ao bioma.
Chuva e fiscalização reforçada
O coordenador estadual do Prevfogo, Márcio Yule, avalia que a cheia do Rio Paraguai desempenhou papel fundamental na mudança deste ano.
“A régua de Ladário, que mede a altura do Rio Paraguai, começou a descer agora, no fim do mês de julho. Mesmo assim estabilizou em 3,30 metros por uns 20 dias. Normalmente, começa no fim do mês de junho e nesse período estaria com 0,50 centímetros. Ano passado também foi agravado pois o rio começou a descer em maio ainda, antecipando em quase um mês”, explicou.
Além das condições naturais mais favoráveis, ações preventivas ganharam reforço após o desastre de 2024. De acordo com relatório do Cemtec-MS, elaborado em parceria com Semadesc e Corpo de Bombeiros, mesmo na ausência de queimadas, equipes seguem mobilizadas.
“Observa-se uma redução de 60% na área queimada do Cerrado em MS, e uma redução de 98,8% no bioma do Pantanal, em MS e MT, em relação ao ano passado. O Corpo de Bombeiros já está em atuação na região desde o dia 1º de janeiro e já foi empregado um efetivo de 676 bombeiros e bombeiras militares nas ações de prevenção, preparação e combate aos incêndios florestais”, destaca o documento.
O governo federal também estruturou medidas mais amplas. Entre elas, a Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo (PNMIF), que completou um ano de vigência, e a manutenção de brigadas permanentes do Prevfogo/Ibama no bioma desde dezembro de 2024. Já em Mato Grosso do Sul, a chamada Lei do Pantanal, em vigor desde fevereiro de 2024, estabeleceu regras específicas de uso do solo e prevenção.
Alerta para agosto e setembro
Apesar do cenário positivo, os especialistas alertam que o período mais crítico de incêndios ainda está por vir. Prognósticos do Cemtec-MS indicam que entre agosto e setembro a probabilidade de fogo permanece alta em várias regiões do estado, especialmente no sul, sudoeste e áreas pantaneiras.
Como medida preventiva, a Semadesc e o Imasul publicaram a Resolução nº 004/2025, que suspende até 30 de novembro qualquer tipo de queima prescrita ou autorização para queima controlada em Mato Grosso do Sul.
Bioma segue em risco
Mesmo com a redução drástica nas queimadas, pesquisadores apontam que a proteção ao Pantanal continua insuficiente. A professora da UFMS, Rita de Cássia Martins dos Santos, lembra que a Unesco rejeitou, em 2023, a inclusão do bioma na Lista do Patrimônio Mundial em Perigo.
“Embora tenha sido protocolada uma petição requerendo a inscrição do sítio na Lista do Patrimônio Mundial em Perigo, a Unesco não acatou a solicitação e manteve o Pantanal fora da lista elaborada em 2023. Conclui-se que o bioma permanece carente de proteção a nível nacional e internacional, ante a escassez de medidas eficazes para o controle dos incêndios”, afirmou.
O conselho nacional, instância necessária para que o Pantanal avance no processo de reconhecimento como patrimônio mundial, ficou desativado entre 2019 e o início deste ano. Diante do risco de desclassificação, o colegiado foi reativado recentemente.




