Com Mato Grosso do Sul sob alerta de chuvas intensas até sexta-feira, o Rio Aquidauana se aproxima de registrar o maior nível desde 2018, cenário que pode colocar mais de 100 mil pessoas em risco de danos severos, como perdas de imóveis e bens — situação semelhante à vivida há oito anos.
Na manhã de ontem, os municípios de Aquidauana e Corguinho decretaram estado de emergência em razão das chuvas que atingem a região neste mês. O volume elevado de precipitação deixou o rio próximo do transbordamento, o que pode gerar impactos significativos à população ribeirinha e às áreas urbanas.
“Neste momento, nós temos que nos unir, unir força para que, havendo o alagamento, que é algo que nós não conseguimos impedir, são as forças da natureza, mas que, juntamente com toda a equipe que eu citei, nós possamos fazer com que as coisas aconteçam dentro de uma normalidade possível”, afirmou o prefeito de Aquidauana, Mauro do Atlântico.
Ainda ontem, três famílias do município receberam apoio para realizar mudança preventiva e optaram por se abrigar em casas de parentes.
“Pedimos para que a população evite encostas de morro, margens de rios e lugares alagadiços. Quando forem oferecidas a oportunidade de mudança de deslocamento do local, que elas possam fazer o mais rápido possível e que também elas possam conduzir com elas seus documentos pessoais, medicamentos de uso contínuo e desligar fontes de energia e de gás da casa”, orientou Claudio Alviço, da Coordenadoria da Defesa Civil local.
Dados do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) apontam que Corguinho acumulou mais de 400 milímetros de chuva desde o dia 1º, enquanto Aquidauana já ultrapassou os 115 milímetros. A principal preocupação das autoridades é a continuidade das precipitações, já que a instabilidade climática deve persistir até amanhã.
Conforme aviso meteorológico, há risco de chuvas “entre 30 e 60 mm/h ou 50 e 100 mm/dia” em 45 dos 79 municípios sul-mato-grossenses, incluindo a região da bacia do Rio Aquidauana. Até o fechamento desta edição, o nível do rio permanecia estabilizado em 7,14 metros.
À reportagem, o coordenador da Defesa Civil de Corguinho, José Correia Salgado, afirmou que a tendência é de elevação contínua do nível do rio, uma vez que as chuvas não devem cessar nas próximas horas. Ontem, o Rio Taboco já transbordou e provocou prejuízos em Rio Negro, como a invasão de água na MS-080.
“Em todas as regiões do município [Corguinho] nós estamos com problemas, grandes problemas, e a Defesa Civil ainda não conseguiu alcançar todos os lugares. E parece que, pela previsão, vai chover até o fim de semana. Então, é uma preocupação muito grande”, disse à reportagem.
No fim da tarde, o Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul (Imasul) emitiu dois avisos de evento crítico, indicando situação de emergência devido à elevação dos níveis dos rios Taquari e Aquidauana, com base em dados das plataformas de coleta instaladas nos municípios monitorados.
Segundo a estação hidrometeorológica, na manhã de ontem o Rio Taquari, em Coxim, atingiu a cota de 501, considerada nível de emergência e inundação. Com a manutenção das chuvas, já há registro de início de invasão das águas em algumas áreas.
“Estamos acompanhando a evolução dos níveis em tempo real. As chuvas persistentes em toda a bacia hidrográfica têm elevado rapidamente as cotas dos rios, o que aumenta o risco de transbordamentos e impactos diretos às áreas mais vulneráveis”, destacou o gerente de Recursos Hídricos do Imasul, Leonardo Sampaio.
Última enchente
Em fevereiro de 2018, temporais em todo o Estado levaram diversos municípios a decretarem situação de emergência.
“Verdadeiro dilúvio caiu sobre Mato Grosso do Sul, deixando estragos em Campo Grande e no interior. Rios e córregos transbordaram e aproximadamente 50 famílias estavam desalojadas até o início da noite anterior”, disse a reportagem do Correio do Estado em 21 de fevereiro daquele ano.
Na ocasião, o Rio Aquidauana atingiu 10,93 metros — o segundo maior nível já registrado, abaixo apenas da enchente histórica de 11,20 metros.
Como reportado pelo Correio do Estado há oito anos, cerca de 153 pessoas ficaram desabrigadas em Aquidauana, impacto que levou à suspensão das aulas por uma semana e ao fechamento temporário de estabelecimentos comerciais.
“Trinta e duas famílias de ribeirinhos haviam sido resgatadas e levados para abrigos. Eram 85 pessoas ocupando provisoriamente por tempo indeterminado os salões das paróquias das igrejas. Apesar do número expressivo, poucos ficavam durante o dia nestes locais improvisados”, reportou o jornal na época.
Diante do cenário, o então governador Reinaldo Azambuja (PSDB) anunciou a liberação de R$ 800 mil em auxílio emergencial para Aquidauana (R$ 500 mil) e Anastácio (R$ 300 mil). Antes disso, em 2011, uma enchente de 10,70 metros já havia provocado danos semelhantes na região.
Rio Aquidauana
O Rio Aquidauana nasce na Serra de Maracaju, em São Gabriel do Oeste, e percorre cerca de 620 quilômetros, passando por municípios como Anastácio, Aquidauana, Bandeirantes, Camapuã, Campo Grande e Sidrolândia, até desaguar no Rio Miranda, na região do Pantanal.




