Soldadores denunciaram ao Ministério Público do Trabalho a empresa Enesa Engenharia, por falsas promessas de trabalho e irregularidades no processo de contratação dos profissionais. Os homens saíram das regiões Norte e Nordeste do País para trabalhar na construção da fábrica de celulose da companhia, localizada no município de Ribas do Rio Pardo, distante 98 quilômetros de Campo Grande. A audiência de conciliação foi marcada para esta sexta-feira (12), às 15h.
Eles afirmaram que a companhia recruta os trabalhadores de maneira on-line, paga o deslocamento até Mato Grosso do Sul e ao serem reprovados no teste, são obrigados a voltar de ônibus e despejados do alojamento temporário. A situação revolta os soldadores. Eles se dizem abandonados, sem respaldo financeiro algum e vivem apenas com a alimentação oferecida no hotel, às margens da BR-163, na Capital.
Ao todo, 150 trabalhadores teriam ficado, de maneira rotativa, quase 20 dias no local aguardando pela resposta dos testes ou esperando pela passagem para retornar às cidades de origem. O Sinticop-MS (O Sindicato dos Trabalhadores na Construção Pesada de Mato Grosso do Sul) foi até o hotel nesta quinta-feira (11) e exige que a Enesa arque com a passagem aérea dos trabalhadores e pague os dias em que eles estiveram impossibilitados de trabalhar.
Joabi Rodrigues, de 40 anos, saiu de Pernambuco para trabalhar em Mato Grosso do Sul. Ele detalhou ao à nossa reportagem a situação em que os soldadores estariam sendo submetidos e alegou irregularidades no processo de contratação, o qual 100 trabalhadores realizaram o teste.
Um profissional não vai sair de casa, deixar a família se não estiver qualificado para fazer o teste. Chegaram muitas pessoas, mas ninguém passou no teste. São profissionais experientes, temos anos de carreira. O que não entendo é que a empresa gasta passagem aérea para que pudéssemos vir, fala que passamos no teste de manhã e nos reprova à tarde, nos dá R$ 800,00 pra voltar pra casa, tem gente que são cinco dias de ônibus, o dinheiro muitas vezes nem cobre a passagem”, disse o soldador.
Joabi comenta que os funcionários da empresa que aplicam o teste não são qualificados para exercer a função. De acordo com o profissional, um teste de soldagem é realizado em duas etapas: a primeira classificada como visual, em que é analisada toda estrutura; e a segunda chamada de raio-x, em que analisam aspectos mais profundos do trabalho. “Às vezes, estamos na cabine testando e já sai que perdemos, sendo que o resultado só sai depois do raio-x. Não tem coerência. Somos trabalhadores sérios, pais de família, não viemos passear, temos que voltar com o pão para sustentar nossa casa. Como vamos voltar sem nada?", questionou.
Outros relatos - Elderson Welder Ferreira, de 38 anos, saiu do Espírito Santo para tentar uma vaga na empresa. Ele revelou que após reprovar no teste inicial, a Enesa oferece um cargo inferior, normalmente disponível para quem está começando na profissão.
“Ela reprova e na mesma hora oferece um salário mais baixo do que viemos ter, pela metade do valor. Se o salário é R$ 3 mil eles nos dão R$ 1.500 pra exercer uma função inferior, de quem tá começando agora. A gente não serve como profissionais, mas servimos para terminar a obra deles com mão de obra barata. Estamos voltando à escravidão?”, questionou.
Hotel - Além das denúncias citadas, os trabalhadores alegam que o hotel onde estão hospedados não oferece cobertores e a alimentação é precária. Eles dizem que recebem marmitas individuais duas vezes ao dia e o café da manhã.
“O café da manhã às vezes tem pão com mortadela ou manteiga. O almoço que sobra é o mesmo da janta. Isso é degradante, só o fato de poder se servir nos sentiríamos bem, isso gera bem-estar. No hotel, não tem nenhum representante legal da empresa. A gente já começa a sentir medo e ficar preocupado já na recepção", disse Joabi.
Coação - Na quinta-feira (11), um representante da Enesa teria ido até o hotel para "averiguar a situação” e, segundo os trabalhadores, a fala dele foi em tom de ameaça: “Eu não entendo de solda, mas de fuzil, metralhadora e pistola sim”.
“A madrugada toda ninguém dormiu. Até que o sindicato foi lá e nos trouxe. A empresa precisa nos dar uma resposta, não é só uma passagem, quase 20 dias aqui não recebemos nada. Se a empresa fosse organizada faríamos o teste de tarde receberíamos a resposta, depois no outro dia iríamos embora. Teve família que com medo comprou a passagem pra galera voltar”, finalizou Joabi.
Sindicato - O representante do Sinticop-MS, Walter Vieira dos Santos, disse à nossa reportagem que a empresa terceirizada faz parte do projeto de linha de frente da Empresa Suzano, tendo a maior quantidade de colaboradores. E que chamou atenção a maneira como o recrutamento é feito.
Conforme o presidente, o Estado passa por um período complexo de falta de mão de obra qualificada, o que faz as empresas buscarem funcionários em outras regiões do País.
"Quando chegam aqui, se deparam com uma situação totalmente diferente da oferecida, são os famosos 'gatos'. A empresa não faz a mesma logística de vinda, o valor não corresponde, não contempla alimentação no deslocamento até a cidade de origem. Colocam os trabalhadores isolados, sem acesso à cidade, na BR, sem dinheiro. Como eles vão alimentar a família e pagar as contas sem receber?", explica Walter.
O Ministério Público do Trabalho apura a denúncia. A reportagem procurou as empresas citadas e aguarda um posicionamento. O espaço segue aberto.
Crédito: Campo Grande News por Natália Olliver



