A adoção da tarifa zero no transporte coletivo de Campo Grande, embora sempre reapareça nas discussões políticas, ainda está longe de se concretizar. O tema, que volta e meia ganha força quando os altos valores das passagens e a dificuldade de acesso ao sistema entram em debate, esbarra em entraves financeiros, falhas estruturais e problemas históricos na gestão do serviço.
O estudo mais recente sobre o assunto, divulgado nesta quinta-feira (27) pela Frente Parlamentar em Defesa da Tarifa Zero, reacendeu a possibilidade de um modelo gratuito em cidades brasileiras. A análise aponta que 706 municípios poderiam adotar a medida, a um custo estimado de R$ 78 bilhões — cerca de 20% acima do gasto atual com transporte público no país. A proposta sugere reestruturar o vale-transporte, transferindo a contribuição diretamente para as empresas, conforme o porte e número de funcionários, sem criar novos tributos e redistribuindo despesas já existentes.
Apesar da projeção nacional, a realidade local é mais complexa. Campo Grande acumula anos de dificuldades no transporte coletivo, que vão desde a frota defasada até a insatisfação constante dos usuários. O Consórcio Guaicurus, responsável pela operação desde 2012, enfrenta sucessivos desequilíbrios financeiros e a falta de um planejamento consistente para sustentar economicamente qualquer modelo inovador, incluindo a gratuidade.
A capital sul-mato-grossense já discutiu a tarifa zero em diferentes gestões, mas nenhuma conseguiu avançar além do discurso. Durante o mandato de Alcides Bernal (PR), entre 2013 e 2015, o tema chegou a ser apresentado como uma meta futura, defendida por entidades e movimentos sociais como solução para ampliar a mobilidade e reduzir custos para a população. Porém, o projeto acabou engavetado, ofuscado pela crise fiscal, entraves políticos e reclamações recorrentes sobre a precariedade do transporte.
Na administração seguinte, com Marquinhos Trad (PSD), a gratuidade voltou a ser mencionada, dessa vez como promessa de campanha. Contudo, o cenário enfrentado pela gestão — marcada por repasses insuficientes ao Consórcio Guaicurus e por sucessivos aumentos tarifários — tornou inviável qualquer avanço concreto. O debate, mais uma vez, perdeu força diante dos desafios operacionais e financeiros.
O modelo sugerido pelo estudo nacional tampouco é simples de aplicar. Para que funcione, seria necessária uma ampla reformulação nas políticas fiscais, além de um consenso entre poder público e setor privado. Isso incluiria garantir que os valores arrecadados sejam suficientes para custear o sistema e assegurar melhorias na qualidade do serviço.
Em Campo Grande, esse desafio é ainda maior. O município convive com limitações orçamentárias, necessidade de renegociar contratos e pressão por investimentos em modernização. Mesmo com iniciativas pontuais do Consórcio Guaicurus para aumentar a eficiência, como novas tecnologias de operação, persistem problemas como veículos antigos, intervalos irregulares e tarifa elevada.
Enquanto isso, a tarifa zero segue mais como um horizonte desejado do que como um plano concreto. A proposta poderia ampliar o acesso ao transporte, especialmente para a população de baixa renda, e contribuir para uma mobilidade mais sustentável. No entanto, sua viabilidade depende de condições que ainda não se alinham: estabilidade financeira, governança eficiente e parceria sólida entre prefeitura, concessionária e setor empresarial.
Com novas pesquisas e pressões sociais reforçando a necessidade de um modelo de transporte mais acessível, o tema deve retornar ao centro das discussões. Mas, por ora, a gratuidade nas viagens permanece como uma expectativa distante — uma promessa que ainda demanda articulação, investimentos e decisões políticas mais firmes para deixar o campo das intenções e se transformar em realidade.




