Daiana Cavalcanti, de 35 anos, a paciente que acusa o médico Bolívar Guerrero Silva e o Hospital Santa Branca de cárcere privado, ainda está tentando entender o que viveu nos últimos meses, desde que se submeteu a uma cirurgia de abdominoplastia e colocação de silicone nos seios, em março deste ano.

Na segunda-feira (25), após saber da denúncia que envolve Kellen Cristina de Queiroz dos Santos – a técnica de enfermagem que foi encontrada por policiais no centro cirúrgico do Santa Branca e que foi apontada por outra paciente como médica –, Daiana encaixou mais uma peça: pode ter sido operada também por uma falsa médica.

A paciente lembrou que também tratou de sua operação com Kellen e que acordou no centro cirúrgico com ela dizendo que tinha feito seu peito.

“Ela falou que foi ela que fez. Quando eu entrei (no centro cirúrgico), eu estava esperando por ela e o Bolívar. Depois, apaguei e, quando abri o olho, ela falou que foi ela que me operou, que meu peito foi até difícil para levantar porque a mama era muito grande, mas ela disse que foi ela que fez. Não vi porque estava apagada, mas ela falou que foi ela”, disse Daiana ao g1.

Ida a churrascaria

Daiana conta ainda que recebeu um preço para operar só com Bolívar, e outro para operar com Kellen, e que foi a técnica de enfermagem que “prescreveu” a caminhada até uma churrascaria nas imediações do hospital para a paciente “reagir”.

“Quando ela me levou para a churrascaria, foi indicação dela. Falando que eu tinha que andar, que reagir. Ela tirou várias fotos, me colocou para fazer TikTok, já foi na maldade. Agora, todo mundo fica me julgando porque eu saí com ela ainda. Eu estava frágil, sem ninguém e ela dizendo que eu precisava fazer, acreditei nela”, contou Daiana.

“O Bolívar falou que não sabia o que fazer porque meus exames estavam todos bons. Depois veio a doutora Alzônia, que é clínica no hospital, e falou que eu estava com anemia. Aí me deram duas bolsas de sangue. Isso me mostraram”, disse.

Novo procedimento

Após a transferência para o Hospital de Bonsucesso, Daiana precisou passar por uma cirurgia para remoção de tecido necrosado, depois que os pontos das cirurgias abriram.

Na luta por sua recuperação completa, Daiana Cavalcanti precisará se submeter a um novo procedimento na quinta-feira (28), para remoção de mais tecido necrosado de seu corpo.

Segundo ela, os médicos estão fazendo a remoção aos poucos e vendo a resposta do organismo.

“Vão abrir para retirar mais necrose. Estão fazendo a remoção de pouquinho em pouquinho e vão fazer um novo curativo. Mas está tudo bem. Estou falando, sem dor, animadinha, mas ainda com medo por causa do que eu passei. Lá, tinha medo até de comer. Depois que vi que eles não eram mais de confiança, tinha medo de colocarem algo na minha comida”, diz.

Quem é Kellen Queiroz?

Kellen Cristina de Queiroz dos Santos, de 31 anos, é uma técnica de enfermagem que trabalha no Hospital Santa Branca vendendo cirurgias plásticas, mas é apontada como falsa médica e processada, juntamente com Bolívar, por erro médico e dano moral.

"Todo mundo a tratava como médica na Santa Branca, ela só vivia em consultório e se apresentava assim nas redes sociais também. Vivia postando foto em consultório e no centro cirúrgico", diz Fernanda Almeida, a paciente que processa Kellen e Bolívar.

Por meio de prints de conversas que constam no processo que tramita na 7ª Vara Cível de Duque de Caxias, é possível ver Kellen fazendo indicação de pomada, oferecendo atestado para o trabalho, marcando revisão de consulta em seu consultório e no que parece ser operando em um centro cirúrgico.

Agentes da Delegacia da Mulher de Duque de Caxias encontraram Kellen dentro do centro cirúrgico do Santa Branca quando foram prender Bolívar. Mas ela disse que estava apenas no local para dar suporte ao médico caso ele precisasse de algo.

Procurado pelo g1, o Cremerj informou que, como Kellen não é vinculada à instituição, não pode regulá-la. A investigação ou punição do caso caberia à polícia. Mas que prescrição de medicamentos, por exemplo, como descrito em um dos prints de Kellen, é um ato médico e exclusivo desses profissionais.

"O Cremerj esclarece que a prescrição de medicamentos no âmbito da medicina trata-se de um ato médico, portanto deve ser feito exclusivamente por médicos. Pode configurar como exercício ilegal da medicina, se esta atividade for realizada por outro profissional e, por isso, o ocorrido deve ser investigado pelas autoridades”, explicou a instituição em nota.

Já sobre Bolívar, o Cremerj informou que já abriu sindicância sobre o médico.

“Em relação a Bolívar Guerrero Silva, o Cremerj reitera que abriu, na última semana, sindicância para apurar os fatos. Todo procedimento segue em sigilo de acordo com os ritos do Código de Processo Ético-Profissional”, disse.

A pena para quem exerce a profissão de médico ilegalmente varia de seis meses a dois anos de prisão. Se o crime é praticado com o fim de lucro, aplica-se também multa.

A prisão de Bolívar

Bolívar Guerrero Silva foi preso no dia 18 de julho quando estava dentro do centro cirúrgico do Hospital Santa Branca, em Duque de Caxias. Segundo a polícia, ele mantinha uma mulher em cárcere privado depois que ela teve complicações depois de uma cirurgia de abdominoplastia e está em estado grave.

A mulher, de nome Daiana Cavalcanti vinha tentando ser transferida de hospital, mas o cirurgião dificultou a transferência, mesmo com duas liminares da Justiça.

Daiana estava internada desde junho desse ano no Hospital Santa Branca, e foi transferida na manhã da quinta-feira (21) para o Hospital Geral de Bonsucesso, na Zona Norte do Rio.

Bolívar responde a pelo menos 19 processos na Justiça por erros médicos e teve sua prisão temporária mantida pela Justiça após audiência de custódia.

Após a divulgação do caso de Daiana, pelo menos 20 mulheres já compareceram à Delegacia da Mulher de Duque de Caxias para denunciar o médico. Em um dos casos, familiares de um jovem foram ao local denunciar que suspeitam que a familiar tenha morrido por erro médico após um procedimento, mas teve a morte atestada como complicações por Covid. Em outro, um paciente, que teve uma parada cardíaca durante a cirurgia plástica, está e estado vegetativo há sete anos.

Crédito; G1 por Eliane Santos