Após anos de reclamações e tentativas frustradas de acordo extrajudicial, o MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul) decidiu recorrer à Justiça para tentar acabar com o mau cheiro liberado pela unidade da JBS no bairro Nova Campo Grande. A ação civil pública foi protocolada somente em 2025, após a cobrança feita pelo Conselho Nacional do Ministério Público, que criticou a demora do órgão em buscar uma solução efetiva.
Em documento apresentado no processo, a promotora de Justiça Luz Marina Borges Maciel Pinheiro relata que a empresa deixou de cumprir compromissos assumidos anteriormente com o Ministério Público. “Este Parquet entendeu que as obrigações contidas nos itens 11 e 22 da liminar não haviam sido devidamente cumpridas, eis que as medidas levadas a efeito pela requerida eram insuficientes para tanto”, afirma.
Entre os pontos questionados pela promotora estão:
Plantio de árvores ao redor do frigorífico, medida que a JBS afirma ter iniciado, mas cuja eficácia depende do crescimento das mudas. Para o Ministério Público, é “inviável” aguardar até três anos pelo resultado, diante da urgência do problema.
Relatórios trimestrais sobre o sistema de exaustão de gases, que, segundo a instituição, não foram apresentados regularmente pela empresa.
O MPMS também solicitou à Justiça a chamada inversão do ônus da prova — na prática, pede que a JBS seja obrigada a demonstrar tecnicamente que adotou medidas para eliminar o mau cheiro sentido diariamente pelos moradores.
Justiça tenta conciliação, mas JBS não apresenta proposta
Em agosto, foi realizada uma audiência de conciliação entre a companhia e mais de 200 moradores que moveram ações individuais pedindo indenização por danos morais e materiais. Os processos foram abertos há menos de dois anos, apesar de os relatos de odor forte na região existirem há mais de 15 anos.
No entanto, o encontro terminou sem avanços. Representantes da JBS compareceram, mas não apresentaram proposta aos moradores. A defesa da empresa alegou que os processos ainda estão em fase inicial e dependem de perícias, laudos e outras provas técnicas.
Empresa diz que problema foi resolvido
A JBS insiste que adotou providências para conter o vazamento de odores e afirma que o MPMS "apresentou impugnação à contestação, apegando-se a questões que estavam próximas de finalização, e juntou novo Relatório de Vistoria". A empresa acusa o Ministério Público de insistir em pontos já superados no processo.
Segundo a indústria, o fechamento das platibandas foi realizado após vistoria técnica e faz parte das medidas para controlar a emissão de gases. Sobre o cinturão verde ao redor da planta industrial, afirma que as árvores recém-plantadas devem atingir o efeito esperado em até dois anos.
Ainda assim, esta é a terceira vez que a empresa usa os mesmos argumentos na Justiça, enquanto o MP ressalta que vistoria feita em maio apontou “cheiro intenso” na região. Vale destacar que a JBS recusou firmar um TAC (Termo de Ajustamento de Conduta), que poderia ter acelerado a resolução do conflito.
A empresa, que registrou lucro líquido de R$ 2,9 bilhões no primeiro trimestre de 2025, ainda não enviou resposta aos questionamentos da reportagem. O caso segue em análise na Justiça estadual.




