Estudantes brasileiros de medicina que cursam graduação no Paraguai estão comercializando medicamentos emagrecedores de forma ilegal como alternativa para custear as mensalidades do curso. Segundo relatos, a prática ocorre sem receio por parte dos envolvidos, que utilizam redes sociais para divulgar preços e receber encomendas.

De acordo com as informações apuradas, os estudantes oferecem os produtos a conhecidos e também fazem anúncios públicos na internet. As entregas costumam ocorrer durante períodos de férias, folgas ou feriados, quando os acadêmicos atravessam a fronteira trazendo os medicamentos do Paraguai para o Brasil, de forma irregular.

Os depoimentos recebidos com exclusividade pela reportagem indicam que a prática teve início no segundo semestre de 2025. Em publicações feitas ainda na região de fronteira, estudantes brasileiros destacam a diferença de preço como atrativo, sem qualquer garantia sobre a procedência, composição ou segurança dos produtos comercializados.

‘Forma de se manter aqui estudando’, diz farmacêutico

O comércio ilegal também é confirmado por profissionais que atuam em farmácias paraguaias. Muitos estudantes admitem aos próprios atendentes que os medicamentos adquiridos têm como destino o mercado brasileiro. A equipe de reportagem esteve no local e ouviu funcionários de estabelecimentos da região. “É uma forma de se manter aqui estudando, daí se arriscam”, relatou um dos trabalhadores.

Diante desse cenário, autoridades alertam que a prática pode ultrapassar o crime de contrabando e se enquadrar como crime contra a saúde pública, cuja pena pode chegar a 15 anos de prisão. O risco se agrava pelo descumprimento de normas sanitárias e pela venda de medicamentos sem prescrição médica.

“Realmente isso acontece e acontece muito. Eles levam do Paraguai ao Brasil. Virou uma febre isso e muitos estão vendendo, revendendo, enfim. Tem um amigo meu que o amigo dele foi preso e está em casa, usando tornozeleira, também estudante de medicina. Fiquei sabendo desse caso. Ele foi pego na BR [rodovia] e meu amigo não quer falar sobre o assunto. Todo mundo sabe, é algo que está acontecendo”, relatou a estudante de 34 anos, que cursa o 7° semestre de medicina em Pedro Juan.

‘É como se tivesse vendendo um creme da Natura’, comenta estudante de medicina

Segundo a acadêmica, a justificativa mais comum entre os colegas que comercializam os medicamentos é a necessidade de complementar a renda para pagar a faculdade. “O valor da mensalidade varia muito lá [Paraguai], né, de faculdade para faculdade. E daí a galera tá vendendo para pagar, tem gente que até em período de aula vai levar o medicamento. É como se fosse venda de qualquer outra coisa, mas é da caneta emagrecedora, entendeu? Assim como vendem também eletrônico, celular, um monte de coisa”, comentou.

Ela afirma ainda que, entre os estudantes que desaprovam a prática, a percepção é de que a venda se popularizou rapidamente. “É como se tivesse vendendo qualquer coisa, sei lá, um creme da Natura entendeu, virou uma febre mesmo. Postam no Instagram, fazem arte, arte com as canetas, com os valores, quais os tipos e aí as pessoas vão encomendando e eles mandando. Ou então junta tudo e leva quando dá tempo. Nossa, antes das férias, era só abrir o Instagram que a gente via um monte de postagens dos colegas, tem gente que ficava até explicando como aplicar”, contou.

Em nota, a Polícia Rodoviária Federal (PRF) informou que as fiscalizações nas rodovias de Mato Grosso do Sul foram intensificadas. Somente em 2026, mais de duas mil unidades de medicamentos já foram apreendidas, número que corresponde a quase metade de tudo o que foi recolhido ao longo de 2025.

“A investigação pode evoluir, principalmente, porque este tipo de crime envolve riscos de saúde, dependendo do alcance e impacto. Ou seja, o que começa com um contrabando pode evoluir para um crime contra a saúde pública, previsto no artigo 273 do Código Penal. O trâmite começa pela apreensão, depois o medicamento vai para a PF [Polícia Federal] e o contrabandista responderá todo um procedimento pelo crime”, ressaltou o agente da PRF, Fábio Sodré.

Horas antes da publicação desta reportagem, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) proibiu a comercialização, distribuição, fabricação, importação, divulgação e uso de medicamentos à base de tirzepatida, das marcas Synedica e TG, e de retatrutida, de todas as marcas e lotes. Os produtos são popularmente conhecidos como “canetas emagrecedoras do Paraguai”.

Segundo a Anvisa, os medicamentos são fabricados por empresas desconhecidas e comercializados em perfis do Instagram “sem registro, notificação ou cadastro na Anvisa”.

A agência também alerta que, por se tratarem de produtos irregulares e de origem desconhecida, “não há garantia sobre o seu conteúdo ou qualidade”, razão pela qual essas canetas emagrecedoras não podem ser utilizadas “em nenhuma hipótese”.