Canetas para emagrecimento escondidas até no interior de pneus e trazidas ilegalmente ao país acendem um alerta para os riscos à saúde. O Conselho Regional de Farmácia (CRF) chama atenção para o transporte inadequado desses medicamentos, muitas vezes feito sem qualquer controle de temperatura, o que pode comprometer a eficácia e até gerar substâncias prejudiciais ao organismo.

O aviso foi reforçado nesta terça-feira (13), após a apreensão de 110 unidades de tirzepatida e seis de retratrutide ocultadas dentro de um estepe. A ocorrência foi registrada na segunda-feira (12), quando um homem acabou preso ao tentar levar a carga para o Estado de São Paulo.

Segundo as informações divulgadas, os produtos tiveram origem no Paraguai. A abordagem ocorreu durante fiscalização da Polícia Militar Rodoviária na MS-386, no distrito de Sanga Puitã, em Ponta Porã.

Durante a inspeção, os policiais perceberam indícios de adulteração no estepe de um Ford Ka. Ao cortarem o pneu, localizaram os medicamentos de procedência estrangeira, cuja entrada e comercialização são proibidas no Brasil. A carga foi avaliada em R$ 88.329.

Riscos — Desde o início de 2026, as apreensões de medicamentos para emagrecimento têm aumentado. A elevada demanda pelo genérico do Mounjaro em grandes centros urbanos tem impulsionado o contrabando, tanto de produtos fabricados no Paraguai quanto de outros países.

A presidente do CRF, Daniely Proença, explica que a conservação adequada é essencial para manter a integridade das moléculas. A tirzepatida, por exemplo, precisa ser armazenada entre 2°C e 8°C, podendo permanecer por até 21 dias em temperatura ambiente, desde que abaixo de 30°C.

“O medicamento no estepe do veículo, ou escondido em partes não refrigeradas, atinge temperaturas muito elevadas, quebrando suas moléculas e causando a inativação total ou parcial do efeito”, reforça.

Caso o princípio ativo seja comprometido, o prejuízo recai diretamente sobre o consumidor. “O paciente fará uso de um medicamento caro e que não fará efeito. Fica frustrado, achando que o remédio não funciona ou que o corpo não responde bem ao tratamento, quando, na verdade, o produto está literalmente estragado”, explica.

Há ainda a dúvida quanto à autenticidade. Medicamentos contrabandeados podem ser falsificados e conter substâncias diferentes daquelas informadas no rótulo.

“Se o princípio ativo não for verdadeiro, ainda pode haver formação de substâncias nocivas quando expostas a altas temperaturas, o que pode desencadear reações alérgicas, por exemplo”, acrescenta.

Sem sinais visíveis — Como as embalagens não contam com indicadores de temperatura, a simples observação não garante que o produto foi transportado de forma correta.

“Às vezes, o produto que saiu da refrigeração apresenta manchas ou enrugamento da embalagem, mas nem sempre. No caso da tirzepatida, a solução injetável é transparente e incolor, ou levemente amarelada, e isso não muda mesmo após exposição à temperatura inadequada”, explica Daniely.

Diante disso, o Conselho Regional de Farmácia reforça que o uso de medicamentos deve ocorrer apenas com prescrição médica, acompanhamento profissional e orientação farmacêutica.

“Pior ainda é usar medicamento contrabandeado, colocando o tratamento e a própria saúde em risco. Ao adquirir um medicamento, procure um estabelecimento farmacêutico regulamentado, onde o profissional garante a procedência e a adequação ao tratamento”, finaliza.