Meses antes da aplicação do Enem 2025, o estudante de medicina Edcley Teixeira já havia compartilhado, em um grupo de WhatsApp com centenas de alunos, duas respostas de matemática praticamente idênticas às que apareceriam no exame oficial. As mensagens foram enviadas ainda em março, oito meses antes da prova — revelação que amplia a dimensão do caso inicialmente exposto após uma live no YouTube, na qual ele mostrou antecipadamente três questões quase iguais às do exame.

Essas duas perguntas antecipadas tratavam de probabilidade em lançamentos de dados (itens 178 da prova azul; 176 da cinza; 169 da amarela; 172 da verde) e da diluição de uma solução com concentração de 99,90% (item 140 da azul; 144 da cinza; 137 da amarela; 148 da verde). Ambas seguem válidas no gabarito oficial divulgado pelo Inep, que anulou apenas as três questões exibidas por Edcley na transmissão ao vivo.

O caso levantou a suspeita sobre como o estudante teve acesso ao conteúdo. Documentos e mensagens aos quais a reportagem teve acesso mostram que Edcley identificou que o Prêmio Capes de Talento Universitário — voltado para alunos do primeiro ano da graduação — utilizava questões que funcionavam como pré-testes do Enem. A partir dessa descoberta, ele começou a incentivar universitários a participar da avaliação e oferecia ao menos R$ 10 por item que conseguissem memorizar. Com esse material, criou um acervo próprio e passou a utilizá-lo em mentorias pagas.

No dia 17 de março, ele enviou no grupo de monitoria a primeira orientação direta: “Se cair no Enem, pode marcar ‘125/216’ sem medo de ser feliz… Nem leia, não”. Meses depois, em 16 de novembro, o Enem trouxe uma questão com exatamente essa probabilidade como resposta. A alternativa correta, segundo o gabarito oficial, também era a letra E.

No mesmo período, Edcley compartilhou outro problema: uma solução de 10 ml, com 99,95% de água, que deveria ser diluída até atingir 99,90%. Ele informou aos alunos que a resposta seria 5 ml. Em novembro, o Enem apresentou exercício idêntico, apenas substituindo mililitros por litros, chegando à mesma resposta.

Assim que a prova oficial terminou, Edcley comemorou no grupo a coincidência entre as questões enviadas em março e as aplicadas na avaliação nacional. “Sei que todos vocês acertaram”, escreveu sobre o exercício de probabilidade. Em relação ao da solução, comentou: “Se alguém errou, é porque não fez”.

O estudante teve acesso antecipado às próprias mensagens, que foram repostadas nos stories do Instagram entre 17 e 18 de novembro, antes que o caso ganhasse repercussão nacional.

Apesar dos indícios, o Inep ainda não havia respondido sobre esses dois itens específicos até a última atualização da reportagem. A instituição cancelou apenas as perguntas reveladas na live, e o presidente da autarquia, Manuel Palacios, afirmou ao Fantástico que “não há qualquer risco técnico” de fraude e que nenhum candidato foi prejudicado.

Edcley, por sua vez, negou ter conhecimento prévio de que esses itens seriam usados no Enem. Em entrevista, classificou as semelhanças como “coincidências”.

As investigações seguem a cargo da Polícia Federal, que já apreendeu o celular e o computador do estudante. Segundo o ministro da Educação, Camilo Santana, o cronograma do Enem está mantido: gabaritos já disponibilizados e resultado final previsto para janeiro de 2026. Palacios reforçou que “não há a menor chance de que um item memorizado por um estudante afete a segurança do Enem".