A consultoria Falconi, uma das mais reconhecidas do país, prevê que Mato Grosso do Sul terá um salto expressivo na produção de celulose nos próximos cinco anos: um acréscimo de quase 11 milhões de toneladas anuais. Apesar do otimismo, o diretor de Papel e Celulose da Falconi, Caio Devanzo, faz um alerta: para sustentar esse crescimento, será indispensável alinhar esforços entre o poder público e a iniciativa privada, garantindo infraestrutura adequada e qualificação profissional.
“Quando existe um plano de expansão de uma fábrica de celulose ou um projeto sendo implementado, não é somente a questão do ativo fabril. Também é necessário pensar em todo o entorno da indústria”, disse. “Ou seja, como será feito o escoamento da produção, como transportar a matéria-prima da floresta até a fábrica? Como será empregada a mão de obra, seja na floresta ou na indústria propriamente?”
Consolidação do Vale da Celulose
Com a chegada de gigantes do setor, como Arauco e Bracell, somada à atuação já consolidada de Suzano e Eldorado, o leste do Estado se firma como um dos maiores polos globais da celulose. A Eldorado projeta investir R$ 25 bilhões em Três Lagoas na expansão de sua segunda unidade, com capacidade de 2 milhões de toneladas anuais. A Suzano, além das duas linhas já em operação na cidade, inaugurou recentemente em Ribas do Rio Pardo uma planta de R$ 22,2 bilhões, com capacidade de 2,55 milhões de toneladas.
Em Inocência, o Projeto Sucuriú, da Arauco, prevê R$ 25 bilhões e início das operações em 2027, alcançando até 3,5 milhões de toneladas ao ano. Já em Bataguassu, a Bracell destinará R$ 16 bilhões a uma fábrica de celulose solúvel, projetada para 2,9 milhões de toneladas anuais.
Investimentos estruturantes
O crescimento do setor, entretanto, só será viável com pesados aportes em infraestrutura. Segundo levantamento com dados oficiais, investimentos públicos e privados devem somar quase R$ 100 bilhões até 2030, incluindo ampliações fabris e melhorias logísticas. A meta é transformar Mato Grosso do Sul em um hub exportador, com rodovias recuperadas, ferrovias integrando fábricas a portos e uma cadeia florestal cada vez mais competitiva.
“A própria empresa fará investimentos para melhorar a logística entre a floresta e a indústria, por exemplo, além da necessidade de investimentos públicos para aumentar o poder de escoamento e para que as empresas possam operar em boas condições.”
O gargalo da infraestrutura
Devanzo destaca que a indústria terá de assumir parte significativa dos custos logísticos, já que a morosidade da máquina pública compromete a agilidade dos projetos. “Esse grau de investimento tem retorno de médio e longo prazo. Uma planta dessa é para durar de 50 a 100 anos. Isso dá confiança para que todo o ecossistema seja montado visando um desenvolvimento sustentado da cidade.”
O governo estadual tenta avançar com projetos estratégicos, como os R$ 2,3 bilhões contratados junto ao BNDES para obras de transporte — valores que, até agora, vêm sendo liberados de forma parcial. Também há tratativas com o Banco Mundial para crédito de US$ 250 milhões (cerca de R$ 1,36 bilhão) destinados ao programa Rodar MS, que inclui recuperação de rodovias como a MS-377 e MS-240.
A nível federal, o Ministério dos Transportes firmou convênio para concessão da chamada Rota da Celulose, que engloba 576 km de trechos das BR-262/MS e BR-267/MS, além de rodovias estaduais. A previsão é atrair R$ 10 bilhões em investimentos privados em duplicações, pavimentações e novos contornos viários.
Porto e ferrovias na mira
Outra frente decisiva é o Porto de Santos, principal saída da celulose brasileira. O governo federal prepara para dezembro o leilão do terminal Tecon Santos 10, orçado em R$ 5,6 bilhões ao longo de 25 anos, com a promessa de ampliar em até 50% a capacidade do complexo.
As ferrovias também estão no radar: em abril de 2025, a ANTT autorizou a Arauco a construir e operar um ramal de 46 km em Inocência, com contrato de 99 anos. O setor defende mais concessões semelhantes para assegurar eficiência logística e reduzir custos no longo prazo.
Perspectivas e empregos
A expectativa é de que a cadeia da celulose, responsável hoje por mais de 10% do PIB estadual, dê um salto a partir de 2028, quando a nova leva de indústrias entrará em operação. “A participação do setor da celulose tende a aumentar de forma significativa no PIB do Estado”, avalia Devanzo.
Outro impacto positivo será no mercado de trabalho. Só a Arauco, com o Projeto Sucuriú, deverá abrir 10 mil vagas imediatas. No total, o setor deve gerar cerca de 100 mil empregos em Mato Grosso do Sul até 2028.
Com o aumento da demanda por profissionais especializados, instituições como Senai, Senac, Sebrae, Famasul e Senar, em parceria com empresas e governo, têm intensificado programas de capacitação. Um exemplo é a Rede de Excelência em Qualificação Profissional, que já formou 4,5 mil alunos na área florestal entre 2021 e 2024, com investimento de R$ 24,5 milhões.
Novos caminhos
Além da Rota da Celulose, outra aposta é a Rota Bioceânica, que ligará Porto Murtinho (MS) a Carmelo Peralta (Paraguai). “O principal benefício da Rota é o potencial de diversificar várias rotas de exportação da celulose e outros produtos sul-mato-grossenses. Isso dará mais possibilidades para a exportação”, afirma Devanzo.



