Com mais de 1,2 milhão de consumidores inadimplentes e um volume de 5,7 milhões de dívidas que somam R$ 9,9 bilhões, Mato Grosso do Sul está entre os estados em que o endividamento das famílias alcança nível considerado crítico.
Os dados constam no Mapa da Inadimplência e Negociação de Dívidas no Brasil, elaborado pela Serasa e encaminhado com exclusividade ao Correio do Estado. O levantamento dimensiona o impacto das contas em atraso no orçamento dos sul-mato-grossenses em um cenário de juros elevados, crédito mais caro e perda do poder de compra.
Somente em janeiro deste ano foram registrados 8.973 novos inadimplentes no Estado — média de 427 pessoas por dia útil. Em dezembro de 2025, o total era de 1.257.626 consumidores negativados; no mês seguinte, o número saltou para 1.266.599. Na comparação com janeiro do ano passado, houve acréscimo de 121.116 registros.
“A inadimplência não é apenas um reflexo de atrasos pontuais, mas de um contexto econômico que pressiona o orçamento das famílias e dificulta o planejamento financeiro de longo prazo”, afirma a diretora da Serasa, Aline Maciel.
O perfil das dívidas mostra maior concentração no sistema financeiro. Débitos com bancos e cartões de crédito respondem por 27,66% do total. Em seguida aparecem financeiras (18,47%) e as chamadas utilities — contas básicas como água, luz e gás — com 15,68%. Serviços diversos representam 14,77%, enquanto o varejo soma 9,72%. Telecomunicações, cooperativas e securitizadoras completam a lista, com participações menores.
O valor médio devido por consumidor em Mato Grosso do Sul é de R$ 7.834,86. Já o ticket médio por dívida chega a R$ 1.723,26, o que indica acúmulo de pendências: em média, cada inadimplente possui quase cinco débitos em aberto.
“A última queda foi registrada em dezembro de 2024. Para todas as idades, regularizar as contas é o primeiro passo para sair do vermelho e retomar o controle da vida financeira”, afirma Patrícia Camillo, gerente da Serasa.
Para o mestre em Economia Eugênio Pavão, a combinação de perda de poder aquisitivo e aumento do custo de vida tem levado famílias a recorrerem ao crédito como complemento de renda, tornando o endividamento uma condição permanente.
“Estamos diante de um endividamento estrutural, que não é mais apenas fruto de consumo, mas de sobrevivência”, avalia.
Ranking municipal
Entre os municípios, Campo Grande concentra o maior número de inadimplentes: são 491,6 mil pessoas com 2,55 milhões de dívidas, totalizando R$ 4,54 bilhões. O valor médio por consumidor na Capital atinge R$ 9.236,45, acima da média estadual.
Na sequência aparecem Dourados, com 106,1 mil inadimplentes e estoque de R$ 850,4 milhões em débitos, e Três Lagoas, onde 57,6 mil consumidores acumulam R$ 429,8 milhões em dívidas. Corumbá e Ponta Porã também figuram entre os municípios com maior volume de pendências financeiras.
O recorte por perfil aponta leve predominância masculina entre os inadimplentes (52,3%), frente a 47,7% de mulheres. A faixa etária mais representativa é a de 41 a 60 anos (35,3%), seguida pelo grupo de 26 a 40 anos (33,7%). Pessoas com mais de 60 anos correspondem a quase 20% do total, evidenciando o impacto do endividamento também sobre aposentados e idosos.
Feirão
Diante desse cenário, ganham força iniciativas voltadas à renegociação. Começa hoje a 35ª edição do Feirão Serasa Limpa Nome, apontado como o maior mutirão de negociação de dívidas do País.
A ação segue até 1º de abril e reúne mais de 2,2 mil empresas, com descontos que podem chegar a 99% para consumidores negativados.
Em Mato Grosso do Sul, mais de 2,1 milhões de pessoas terão acesso a 9,2 milhões de ofertas de renegociação, incluindo débitos com bancos, financeiras, empresas de serviços essenciais, telefonia, varejo e securitizadoras. O pagamento pode ser feito inclusive via Pix, com baixa imediata da negativação e possibilidade de melhora instantânea no Serasa Score.
“O Feirão vai além da negociação de dívidas e pode ser o primeiro passo de uma jornada de educação financeira, ao permitir que o consumidor entenda sua situação, renegocie compromissos em condições mais justas e volte a planejar o futuro com mais clareza”, afirma a diretora da Serasa.
Além dos canais digitais, o mutirão oferece atendimento presencial gratuito em mais de 7 mil agências dos Correios em todo o País. Para negociar, o titular deve apresentar documento oficial com foto. As condições disponíveis nas agências são as mesmas ofertadas no site e no aplicativo da Serasa.
“A parceria com os Correios amplia significativamente o alcance da ação, levando a renegociação de dívidas a regiões onde o atendimento presencial ainda é essencial. Nosso objetivo é garantir que ninguém fique de fora por falta de acesso digital, promovendo inclusão financeira, conveniência e segurança em todo o processo”, destaca Aline Maciel.
Para o presidente dos Correios, Emmanoel Rondon, a iniciativa reforça o papel social da estatal. “Os Correios têm um papel fundamental na prestação de serviços à população, especialmente por estarem presentes em todo o País. Essa parceria com o Serasa amplia o acesso da população à negociação de dívidas, levando informação, orientação e oportunidades reais de regularização financeira a quem mais precisa”, ressalta.
Cenário nacional
A realidade sul-mato-grossense acompanha tendência observada em todo o Brasil. O País iniciou 2026 com 81,3 milhões de consumidores inadimplentes, recorde segundo a Serasa.
São 327 milhões de débitos ativos que, juntos, somam R$ 524 bilhões. Apenas entre dezembro de 2025 e janeiro deste ano, mais de 71 mil brasileiros passaram a integrar a lista de negativados.



