Os Correios iniciaram negociações com instituições financeiras para contratar um empréstimo de R$ 20 bilhões, em uma tentativa de recompor o caixa e enfrentar a crise de liquidez que se arrasta desde o ano passado. O anúncio foi feito nesta quarta-feira (15) pelo presidente da estatal, Emmanoel Schmidt Rondon, que está há menos de um mês no comando da empresa.
Segundo ele, o contrato ainda não foi fechado e segue em fase de tratativas com os bancos. “A gente precisa recuperar a liquidez da empresa para que a gente possa, por exemplo, ter capacidade de pagar o Plano de Demissão Voluntária (PDV). Estamos fazendo uma operação com bancos para a realizar uma operação de tomada de recursos”, afirmou.
O novo pacote de medidas dos Correios foi dividido em três frentes principais: redução de custos, diversificação de receitas e recuperação da liquidez. Para cortar despesas, a estatal abrirá um novo PDV, além de vender imóveis ociosos e renegociar contratos com grandes fornecedores — sem comprometer a segurança jurídica das operações.
Em relação à segunda etapa, Rondon destacou que a empresa busca ampliar suas fontes de receita com novos produtos, ainda não detalhados. O empréstimo bilionário integra o terceiro eixo da reestruturação e, segundo ele, deve garantir fôlego financeiro até 2026.
Apesar de parecer um novo plano, boa parte das medidas já vinha sendo executada pela gestão anterior. Ainda assim, o atual presidente avalia que as ações anteriores tiveram caráter apenas emergencial. “Não temos o impacto total que as medidas anteriores tiveram, mas elas foram emergenciais, não reestruturantes como agora”, ponderou.
Prejuízo crescente e falta de caixa
O cenário financeiro da estatal é crítico. No primeiro semestre de 2025, os Correios registraram prejuízo de R$ 4,3 bilhões, quase o triplo do resultado negativo do mesmo período de 2024, quando as perdas somaram R$ 1,3 bilhão.
A deterioração das finanças fez com que, entre 2023 e 2024, a empresa consumisse 92% do valor que mantinha em caixa e aplicações financeiras, equivalente a R$ 2,9 bilhões. Ainda sob a gestão de Fabiano Souza, um empréstimo de R$ 1,8 bilhão foi tomado para tentar manter o fluxo de caixa, já insuficiente para cobrir os compromissos do dia a dia.
A escassez de recursos resultou em atrasos de pagamentos e repasses a fornecedores, agências conveniadas e prestadores de serviço. Transportadoras reduziram o ritmo de entrega, e até o plano de saúde dos funcionários foi afetado, com redes hospitalares suspendendo atendimentos.
“O que aconteceu de fato aqui, é que a nossa empresa não se adaptou de uma forma ágil a uma nova realidade e essa falta de adaptação fez com que a gente sofresse no resultado, com falta de caixa”, reconheceu Rondon.
Nos relatórios financeiros, a própria estatal admitiu que está realizando pagamentos conforme “disponibilidades financeiras”, e não de acordo com os prazos estabelecidos.
Obrigações adiadas somam mais de R$ 2,7 bilhões
Em julho, a empresa oficializou o adiamento de obrigações financeiras que totalizam R$ 2,75 bilhões, como forma de preservar o caixa e tentar reequilibrar o fluxo financeiro após 12 trimestres seguidos de prejuízo.
Entre os compromissos postergados estão repasses ao plano de saúde Postal Saúde, ao fundo de pensão Postalis, ao programa Remessa Conforme, além de débitos tributários e pagamentos a fornecedores.
Veja os principais valores suspensos:
INSS Patronal – R$ 741 milhões
Fornecedores – R$ 652 milhões
Postal Saúde – R$ 363 milhões
Remessa Conforme – R$ 271 milhões
Vale-alimentação/refeição – R$ 238 milhões
PIS/Cofins – R$ 208 milhões
Postalis – R$ 138 milhões
Franqueadas – R$ 135 milhões
De acordo com a estatal, 53% dessas dívidas são de natureza que gera multa e juros, mas não interrompe as operações, como ocorre com tributos e repasses a planos de empregados.
Durante entrevista coletiva, Rondon evitou detalhar os valores atualizados da dívida, citando sigilo nas negociações com credores.
Plano emergencial lançado em maio
Após o prejuízo do primeiro trimestre, a gestão anterior dos Correios havia lançado um pacote emergencial para conter gastos. As medidas incluíam:
Corte de 20% nas funções da sede;
Redução da jornada de trabalho para 6 horas diárias;
Suspensão temporária de férias até janeiro de 2026;
Prorrogação das inscrições do PDV;
Incentivo à transferência voluntária de agentes;
Retorno obrigatório ao trabalho presencial;
Lançamento de novos planos de saúde, com economia prevista de 30%;
Criação de um marketplace próprio ainda em 2025;
Captação de R$ 3,8 bilhões junto ao New Development Bank (NDB);
Compartilhamento e otimização de unidades operacionais e logísticas;
Venda de imóveis e revisão de contratos estaduais.
Apesar da amplitude das ações, a atual gestão afirma que os efeitos ainda não foram totalmente sentidos. “As medidas anteriores foram emergenciais, sem impacto reestruturante na empresa”, reforçou Rondon.



