O avanço econômico de Mato Grosso do Sul, impulsionado por setores estratégicos como florestal, agroindústria e construção civil, esbarra em um gargalo cada vez mais evidente: a escassez de mão de obra qualificada. Dados da Fundação do Trabalho (Funtrab) indicam que, ao final de 2024, o Estado acumulava 24.280 vagas de emprego não preenchidas, mesmo registrando uma das menores taxas de desocupação do país.

No ano passado, o saldo de empregos formais – diferença entre contratações e demissões – foi de 12.341 postos, com 412.538 admissões e 400.197 desligamentos, segundo o Ministério do Trabalho. Já no primeiro trimestre de 2025, a taxa de desemprego medida pelo IBGE ficou em 4%, a quarta mais baixa do Brasil, caracterizando pleno emprego. Apesar disso, a demanda por trabalhadores especializados segue crescendo e tende a se intensificar com a continuidade da expansão econômica.

Entre os motores desse crescimento está o chamado “Vale da Celulose”, que concentra grandes investimentos de empresas como Suzano, Arauco, Eldorado e Bracell. O setor florestal, em conjunto com frigoríficos, usinas de etanol de cana e milho, produção de grãos, bioenergia, varejo, logística e transporte, compõe o grupo de atividades mais impactadas pela carência de profissionais preparados.

A indústria lidera o déficit, com 5.858 postos em aberto. Para Kleber Luiz Recalde, presidente do Sindicato Intermunicipal da Indústria da Construção de Mato Grosso do Sul (Sinduscon-MS), a velocidade de crescimento exige resposta rápida. “Nosso maior desafio é suprir essa necessidade de mão de obra, especialmente qualificada. Criamos programas de formação gratuitos para preparar profissionais e já temos projetos em andamento”, explica. Entre as iniciativas, o projeto Construindo Talentos e a ação Elas Constroem visam capacitar trabalhadores e trabalhadoras para atuação imediata, com acesso a um banco de talentos mantido pelo sindicato.

No campo, o cenário é semelhante. O superintendente do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar-MS), Lucas Galvan, afirma que as maiores demandas estão em funções operacionais, como operação de máquinas agrícolas, aplicação de defensivos, inseminação artificial, manejo de gado e agricultura de precisão. Cursos técnicos e de qualificação profissional buscam atender a essa demanda, com destaque para áreas como Agropecuária, Florestas, Agronegócio e Zootecnia. Em 2025, 1.248 alunos concluíram formações técnicas no Senar-MS, sendo que 80% deles já ingressaram no mercado de trabalho.

O cenário de crescimento é confirmado por levantamento do Banco do Brasil, que projeta alta de 5,3% no Produto Interno Bruto (PIB) do Estado neste ano – mais que o dobro da média nacional de 2,5%. Porém, conforme aponta o economista Ornellas, essa expansão traz desafios adicionais, como a necessidade de formar e reter profissionais para plantas industriais de alta complexidade, além de atrair lideranças técnicas para regiões remotas. “O desafio é duplo: desenvolver talentos localmente e trazer profissionais de fora na mesma velocidade do crescimento”, conclui.